MANECAS E A GUINÉ-BISSAU POSITIVA – EM PRIMEIRA PESSOA

Realizado no verão passado, eis uma grande entrevista com o conceituado músico guineense Manecas Costa. O percurso, a música e o país. Uma conversa descontraída com o Ponta de lança da música Guineense.

“Existem condições para aparecer muitos Manecas na Guiné-Bissau”
Comecei com nove anos de idade, num país onde a música não é uma prioridade, mas onde existem condições para aparecer muitos “Manecas”, porque há talentos que muita gente desconhece. Foi uma altura muito bonita; subir ao palco com aquela idade e manter o equilíbrio até hoje.
Tive a sorte de conhecer José Carlos Schwarz, Super Mama Djombo, Nkassa Cobra, Cobiana Djazz, entre muitos outros… Grupos que na altura passaram aos jovens a sabedoria que guardo como referência. Para mim é um orgulho fazer parte da história dos mais velhos e da minha geração. Com nove anos nem conseguia agarrar bem na guitarra; é uma história engraçada. Infelizmente, na altura não havia meios de imagem na Guiné-Bissau.
Graças aos meus pais, consegui acompanhar as duas coisas: a escola e a música. Muito cedo tornei-me uma referência na Guiné-Bissau e, ao passar nas ruas, era reconhecido. São memórias que guardo com carinho e de um valor incalculável. Desde miúdo criei logo a ambição de poder estar com os mais velhos e ver o que faziam e tudo tomou o rumo que queria, baseado na simplicidade musical, na coragem; ser músico ambicioso, extremamente exigente comigo próprio e ser um músico do povo. E isso fez-me ser um músico querido, um músico que apreendeu muito com os mais velhos e fez-me fazer parte da história da música guineense, assim como o grupo “África Livre” que criei, miúdos com doze e treze anos de idade e acabámos por brilhar ao lado dos mais velhos, os Super Mama Djombo ou os Nkassa Cobra, vencendo festivais. E isso é óptimo e faz parte da história. Espero que a Guiné-Bissau possa ter mais pessoas assim, porque o talento existe.
O mais importante neste percurso foi o convite que o Zé Manel me fez para gravar o primeiro disco dele, tendo viajado para o estrangeiro. Na altura tinha 14 anos. Eu sou gémeo e lembro-me da minha falecida irmã chorar e dizer: “Manecas vai para Europa e não vai voltar”. Foi um período bonito, poder fazer parte do elenco de Zé Manel. Fui o primeiro músico guineense a tocar dois instrumentos na gravação de um disco. E logo, dos 14 aos 18 anos, ganhei festivais nacionais e internacionais. Quando voltei para a Guiné-Bissau fui nomeado embaixador da UNICEF por cantar temas de sensibilização para os problemas a nível da saúde, por preocupações com as crianças e por fazer trabalho de campo nas aldeias. Foi sempre um percurso de muita responsabilidade. Como agora, tenho a responsabilidade de levar a bandeira da Guiné-Bissau o mais longe possível, dignificá-la e fazer com que esteja nas prateleiras internacionais.
“Sou ponta-de-lança da música da Guiné-Bissau e quero marcar golos”
O meu percurso tem história e muita aprendizagem com os mais velhos que sempre me protegeram e ensinaram que tinha de ser bom, estudar, praticar muito e respeitar as pessoas, e isso criou em mim a responsabilidade.
A Guiné-Bissau é um país com dificuldades, onde a música nunca foi prioridade. Após a nossa independência já havia um guineense, o José Carlos Schwarz, a gravar com os norte-americanos. Ele estava no apogeu da sua carreira e tinha o objectivo de levar a música da Guiné-Bissau o mais longe possível. E foi isso que eu peguei. Vejo que ele tentou passar-me a ideia de ser aquilo que somos. Não quero ser um Mickael Jackson, quero ser aquilo que represento para uma nação, a Guiné-Bissau, com uma responsabilidade enorme. E sei que muita gente valoriza o que faço e confia em mim e acredita que a minha colaboração tem ajudado muito. Tenho de me assumir como “ponta-de-lança” da música da Guiné-Bissau e é assim que me sinto e, se estou à frente, quero marcar golos.
“Represento o lado positivo da Guiné-Bissau e enquanto puder ter a sorte de cantar e levar a bandeira do país e escrever o seu nome no mundo, vou fazê-lo”
No meu segundo álbum, “Fundu di Matu” gravado com a editora Balafon de José Augusto Tavares, fiz uma música para acalmar os meus compatriotas na altura do conflito armado. Tive também a colaboração de Luís Represas na música “Fidjus di Guiné Foronta” e estas duas músicas fizeram muito sucesso a nível internacional. Para meu espanto, recebi uma notícia da sociedade de autores de Portugal a enviar-me uma quantia pelo sucesso das minhas músicas. E recebi contacto de uma amiga jornalista de Espanha, emocionada com as minhas músicas cantadas em crioulo. Fiquei contente porque é sinal de que a ideia chegou às pessoas, que sem perceber crioulo sentem a música.
Depois foi feita uma colectânea com vários músicos dos PALOP, entre eles Paulo Flores, Dom Kikas e muitos outros, que também teve grande destaque. Fomos todos a Londres e não esqueço porque comecei a ganhar destaque, pelas duas musicas que já estavam a fazer sucesso lá. Lembro-me muito bem que nos concertos eram muitos os fotógrafos e jornalistas e a minha produtora apenas me disse: “Chegou a tua hora! É altura de pores a música da Guiné-Bissau num patamar internacional. Sei que é o teu sonho e esta é a tua oportunidade, de mostrares o lado positivo do teu país. Este é o teu caminho”. E o director comercial da BBC disse-me que sabia que eu tinha um concerto em Cartagena e que me ia ver. Fiquei pasmado porque era o director da BBC e eu não tinha nome. Aquele foi o concerto da minha vida e teve tudo de bom, da minha parte e da banda. E toda a BBC ficou encantada. No dia seguinte os jornais internacionais consideraram-me a revelação do festival.
A BBC proporcionou-me um encontro depois da entrevista na BBC 3, e quando saí eles estavam todos à porta com papéis, perguntando-me onde eu queria gravar, e eu respondi “na Guiné-Bissau”, mas também criando a ponte com a Europa. E assim nasceu o “Paraiso Di Gumbe”! Deslocaram todos os meios técnicos e uma equipa de produção para a Guiné-Bissau, com os melhores produtores. Levei-os lá com a intenção de mostrar o país, fazer a história, valorizar os músicos locais, tudo o que apreendi lá e mostrar a simplicidade, a harmonia e a coragem das pessoas; internacionalizar-me e aos outros que estão lá.
“Paraiso Di Gumbe” foi um dos álbuns mais caros da história da música africana, por tudo que custou, desde equipa de produção que nos acompanhou, canais de televisão e o documentário que fizemos para mostrar o país, as nossas riquezas e sobretudo as pessoas. “Paraiso Di Gumbe” dignifica a música da Guiné-Bissau por duas razões: porque é gravado pela BBC, que dispensa apresentações, e porque é um disco que está entre os 20 melhores. Será difícil de substituir, pela enorme dimensão que a BBC criou à sua volta.
“Paraiso Di Gumbe” mostra que represento o lado positivo da Guiné-Bissau e enquanto poder ter a sorte de cantar e levar a bandeira do país e escrever o seu nome no mundo, vou fazê-lo, como vai acontecer agora em Macau, mostrando um país que tem muito para dar.
“A Tina é hoje uma das bandeiras da nossa cultura”
Fui nomeado na Galiza como autor revelação, não sabia que era também actor, mas descobriram-me e a peça “Humor Neghro”, com Carlos Blanco, virou moda. Continuámos a peça e agora chama-se “Africaniza-te”. Em “Humor Neghro” mostramos a Guiné-Bissau e isso é uma coisa que sempre fiz. Mostramos a Tina e a importância deste instrumento musical. A Cabaça é importante para nós na Guiné-Bissau. Valorizo muito a Tina. Fui o primeiro produtor a introduzir a Tina na gravação do álbum de Iva & Ichi e a Tina hoje é uma das bandeiras da nossa cultura. E é Tina e não “Tambor de Água” que gosto de chamar-lhe. Fala-se muito da Corá (Kora) mas as pessoas não dizem que é um instrumento que vem da Guiné-Bissau, de Cansala, e tudo isso são sonhos que um dia pretendo realizar, chamando o mundo para mostrar a nossa cultura. Mas existem sempre burocracias quando tentamos algo que no nosso país não é prioridade.
“Alô Irmão, com Narf, é mais um projecto para levar longe o nome da Guiné-Bissau”
Mostra que vários projectos podem e vão acontecer, porque Narf não acreditava que eu aceitasse. Achava-me diferente. Conhecemo-nos no “Festival Cantos na Maré”. Quando ele ligou, deu voltas e voltas até que explicou e eu aceitei e começámos a compor. E isso depois de chegar de Angola, onde recebi o prémio da revista “África Today”. Gravámos “Alô Irmão” ao vivo e rodámos no mundo inteiro, um disco com qualidade e com muitos fãs. O lançamento em Portugal foi muito bom! Fiquei contente com a presença do público e também com os colegas músicos que marcaram a sua presença. Tenho esperança que seja mais um projecto para levar longe o nome da Guiné-Bissau.
“Quero gravar o meu próximo trabalho a solo, à minha maneira, o mais urgentemente possível”
Neste momento tenho vários projectos. A música é algo que não me falta, graças a Deus. Em todos os lados surgem-me músicas e há muitas antigas que ainda não estão gravadas. Penso que me ficava bem gravar um disco no próximo ano, mas também queria gravar um disco para promover a cultura da Guiné-Bissau e os mais velhos que me deram o colo, para os homenagear e lembrá-los a todos. Mas esse projecto depende de apoios que estão a demorar. O meu disco é algo que quero gravar o mais urgentemente possível e à minha maneira. E isso quer dizer mostrar os nossos instrumentos e quero tocá-los todos.
Quero aproveitar para apelar às pessoas que comprem os discos. Sobretudo nós, os filhos da terra, pelas pessoas que querem fazer algo. É preciso ajudar também quem trabalha.
“Criar um ambiente para poder dizer adeus à agressividade e à violência, e bem-vindo à paz e à harmonia”
Não posso fugir… a Guiné-Bissau está numa situação difícil. Nunca apoiei os políticos e espero nunca fazê-lo. Mas há uma onda positiva. Aliás, o desporto já está a mostrar isso. Acho que o próximo ano pode ser bom a nível da cultura. Se mantivermos esta onda, podemos ter uma participação no palco internacional e ter festivais internacionais.
Devemos apostar na Educação e criar um ambiente para poder dizer adeus à agressividade e à violência, e bem-vindo à paz e à harmonia. O povo sabe o que quer. Simplesmente tem muitos obstáculos. Na África Ocidental devemos ser o país que tem mais para dar, mas ainda não deu nada. A nível turístico nada foi feito. Temos praias lindíssimas e muito mais.
A Arte, e em especial a música, é uma das coisas que mais evoluíram na Guiné-Bissau. Desde a independência os músicos têm mostrado a sua vontade de participar no desenvolvimento do país.
“Tem de se trabalhar na Cultura, porque isso faz com que o País saia da depressão em que está”
Gosto do meu País – adoro a chuva da Guiné-Bissau – e tento homenageá-lo com aquilo que sei fazer melhor: cantar e tocar. Cada vez que estou no palco tento levar as pessoas numa viagem à Guiné e mostrar o lado positivo do país.
Espero como homem, filho da Guiné-Bissau, poder fazer parte do desenvolvimento do País e poder levar os meus amigos para lá. Há vontade e é preciso ter a paciência e trabalhar, porque sabemos que nada vai a casa de ninguém. Devemos adaptar exemplos de Cabo Verde em termos de festivais, valorizar mais o nosso carnaval e fazer concursos de misses no País. Há que ter projectos, que devem associar-se à Educação e incentivar os miúdos a estudar. Tem de se trabalhar na Cultura, porque tudo isso faz com que o País saia da depressão em que está e proporciona estabilidade emocional.
Acho que a Arte deve andar junta com a Saúde e a Educação, para o bem do Desenvolvimento.
Texto: Saibana Baldé
Fotos: divulgação

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